Fonte: Medium

Já se encontram nas prateleiras das lojas mais próximas, objetos muito inteligentes, para pessoas pouco inteligentes.

Como você pôde sobreviver tanto tempo sem um EggMinder? Nunca ouviu falar? Trata-se de uma bandeja com sensor que informa quantos ovos existem na geladeira.

Não gosta de ovos?

O mercado já possui produtos inteligentes para todos os gostos! Que tal fraldas com conexão Wi-Fi? Sensores que identificam se a janela está aberta ou fechada? Ou mesmo os inovadores smart copos que informam que tipo de bebida há no copo?

Todos esses exemplos são manifestações já existentes consideradas tecnologias inovadoras associadas ao conceito que vem sendo construído de “Internet das Coisas” (Internet of Things — “IoT”).

Existem fortes divergências com relação ao conceito de Internet das Coisas, não havendo ainda um conceito único e unânime. De uma maneira geral, pode ser entendido como um ecossistema de objetos físicos interconectados com a Internet, através de sensores pequenos e embutidos, criando um ambiente de computação onipresente (ubíqua). Apesar de parecer um cenário futurístico, a Internet das Coisas já é uma realidade. Todos os dias, “coisas” se conectam à Internet com capacidade para compartilhar, processar, armazenar e analisar um volume enorme de dados entre si.

É necessário refletirmos sobre os variados produtos que têm surgido no mercado, muitas vezes desacoplados do caráter de real utilidade e novidade, mas que ainda assim, são considerados tecnologias inovadoras somente pelo fato de envolverem o aspecto digital. É o que vem sendo denominado de “A Internet das Coisas Inúteis”.

A tecnologia digital não necessariamente torna a vida das pessoas mais fácil e os custos para conectar um dispositivo são altos e os benefícios talvez sejam baixos demais para compensar o aumento de valor no produto. Muitas vezes, uma solução de baixo custo como uma lista de compras, em substituição ao inovador EggMinder, acabaria sendo mais conveniente na análise custo-benefício, substituindo um dispositivo caro, com configurações complexas e baterias que precisam ser recarregadas constantemente. Isto não parece tão inteligente.

Além disso, a quantidade de lixo oriunda do descarte de objetos e dispositivos obsoletos, o chamado “e-waste”, está aumentando no mundo inteiro, pois a conectividade dos aparelhos tende a deixá-los ultrapassados mais rapidamente do que produtos não inteligentes, sendo considerado um problema grave já em algumas cidades.

É importante termos em mente também que transformar um objeto analógico em inteligente, além de encarecer o produto e deixá-lo sujeito a falhas que não teria a priori, pode gerar riscos também em relação à segurança e privacidade. Por isso é importante pensarmos, sob a perspectiva do cidadão como consumidor e do Estado como incentivador de criações intelectuais, que tipo de tecnologias e objetos inteligentes devemos incentivar.

Por quase dois meses, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) manteve em consulta pública o Plano Nacional de Internet das Coisas no Brasil. O plano irá definir as medidas a serem tomadas para que o país promova a Internet das Coisas como modelo de desenvolvimento de vários setores.

A consulta recebeu mais de 2 mil comentários. Apesar de ser um número expressivo, se considerarmos as consultas públicas prévias realizadas via Internet, ainda é um número que reflete a falta de engajamento político das pessoas nos ambientes online e, ainda mais grave, reflete a falta de consciência da população sobre como este cenário de hiperconectividade vai impactar nossas vidas daqui para frente.

Todos devem participar ativamente desse debate. A Internet das Coisas, para não ter sua utilidade colocada em cheque, não deve perder de vista que deve ser voltada a uma Internet das Pessoas em primeiro lugar. A perspectiva oposta seria digna da inteligência de um EggMinder.

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